
Uso de pesquisas não muda o que está posto. O ano é de colheita
Como já antecipei em comentários na minha participação no Giro das Onze (247), nesta quarta-feira (02/04), não convém dar muito peso à enxurrada de pesquisas que inundam as nossas vidas. Temos de prestar mais atenção aos que as encomendam, a assiduidade com que elas acontecem e com que intenção. Daí, levados em consideração esses aspectos, acrescentemos o quanto é prematuro estarmos nos debruçando sobre quais ou tais “candidatos”, quando ainda há um deserto de Atacama a ser atravessado até a disputa propriamente dita, em 2026.
E, ainda, considerando os antecedentes históricos, há o componente mídia, que se escora nos resultados dos elementos da pesquisa, para imprimir no respeitável público um pessimismo com relação ao governo. Como nos alertou Marcos Coimbra, o mestre em pesquisas, elas não definem o que está por vir, tão prematuramente.
Em conversa com o sociólogo João Dulci, professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UFJF e vice-diretor do Centro de Pesquisas Sociais da mesma instituição, ele apontou que “a economia está pesando, porque o que mais conta nessa análise atual é o preço de alimentos e combustíveis”. Esses dois componentes do consumo têm o que os economistas chamam de “elasticidade total”, ou seja, não há margem para não comprar. “Elasticidade aí significa que todo dinheiro que entra vai ser usado na compra de alimentos. Portanto, enquanto os preços não baixarem, a percepção de que o poder de compra caiu continua, mesmo que os salários tenham aumento real (o que não é a mesma coisa que aumento do poder de compra, já que inflação é uma cesta muito grande de produtos, que nem sempre são consumidos por todo mundo)”, alerta.
Concedendo analisar a pesquisa Genial/Quaest (03/04), ele diz que “casando esses dados com as perguntas sobre intenção de votos, o que se percebe é que há um leve descolamento entre análise do governo e intenção de votos, algo que é raro, mas que vem se consolidando no Brasil. Dilma em 2014, Bolsonaro em 2022, tinham uma avaliação de governo baixa, mas tiveram muitos votos. Dilma ganhou, mesmo depois da queda de sua avaliação em 2013”, aponta.
Sua opinião é de que “o grande adversário de Lula é ele mesmo, porque ele gerou expectativas muito altas quando se compara o presente aos dois primeiros governos”, considera, fazendo a ressalva: “as conjunturas eram muito diferentes”.
Dulci lembra que “há dados muito interessantes sobre programas de governo, especialmente sobre o Bolsa Família. Ao que parece, o povo não considera factível que qualquer governo encerre o Bolsa Família”.
Outro fator a ser levado em conta, analisa, é que “algumas agendas que funcionavam como um super trunfo do PT no passado parecem ter ficado por lá, como privatização e precarização do trabalho. Isso talvez se explique porque os governos Temer e Bolsonaro jogaram o sarrafo muito pra baixo, de forma quase irreversível. Os valores dos jovens profissionais (formais ou informais) do mercado de trabalho, exposto a 9 anos de reforma trabalhista e a muitos anos de reformas da previdência parecem ter se adaptado a esse contexto desprotegido”, destaca, exemplificando:
“Não se compara mais carteira assinada com mercado informal, porque a carteira assinada não traz mais tanta proteção como trazia antes da reforma da previdência. Por isso, apresentar a CLT como solução para o problema do trabalho hoje é inócuo. Logo, os dados sobre mercado de trabalho e situação de quase pleno emprego têm impactado pouco. A isso se soma a inflação de alimentos, que equaliza as situações. Quando alguém percebe que na informalidade (ou pejotização) consome o mesmo, mas é menos taxado, tem a impressão de que a CLT é uma amarra”.
Dulci nos traz o que vem sendo uma grande dificuldade para manter a mobilização entre trabalhadores: “no fundo, o discurso liberal sobre liberdade de emprego ganhou muita força.”
E chama a atenção para outro aspecto: “se a gente olha para os empregos gerados pelo PT historicamente, a comparação é inevitável e a pessoa percebe que a vida muda pouco. Isso é reflexo da falta de mobilidade da força de trabalho no Brasil. Aqui a situação é: ou se tem emprego, ou se tem um trabalho informal qualquer. Em momentos críticos, se tem desemprego. Mas a recuperação do emprego está impactando pouco, porque os salários ainda estão baixos. Isso é normal, porque, embora em quase pleno emprego, o tempo é curto para uma percepção de melhora”, avalia.
E, por fim, ainda em sua opinião, “a população parece cansada desse discurso de dádiva do governo, ou salvacionismo”, classifica.
Atendo-se aos números da pesquisa divulgada pela Genial/Quaest, Dulci considera que “a situação de Lula hoje não é muito diferente da de Bolsonaro no mesmo período. A impressão que me passa é que a tendência é de melhora da popularidade, por algumas razões: aumento do salário para o funcionalismo, que ainda não caiu na conta, mas vai cair pagando retroativo. Isso atinge uns 18 milhões de brasileiros; a questão do Imposto de Renda, que sequer foi votada, mas deve passar; situação macroeconômica é incomparavelmente melhor que no governo Bolsonaro, logo, este ano é de colheita”, prevê.
Ele antecipa que há alguns potenciais de reveses. Por exemplo: “o congresso não aprovar a taxação dos ricos; o agro continuar especulando e se aproveitando do dólar alto para exportar (o dólar impacta muito na avaliação da classe média também); políticas contracionistas excessivas do Banco Central, congelando investimentos produtivos e alimentando o mercado financeiro; medidas com capilaridade (tipo o pé de meia) não serem percebidas a tempo como política de governo”.
O adendo feito pelo sociólogo é que “o mercado financeiro segue em “descoberto”, ou “short”, que é quando o especulador aposta contra (ao contrário de comprar uma ação ele aposta que aquela ação vai cair). Eles – os investidores -, estão assim com relação às contas públicas desde o início. O mesmo se dá com relação ao dólar. Como o (boletim) Focus é uma profecia autocumprida, se o BC não tiver pulso, pode se deixar levar pela especulação, alimentando essas leituras e largando o setor produtivo brasileiro com crédito caro”, adverte.
Último alerta sobre potenciais reveses: “o tarifaço de Trump, que até agora ninguém entendeu. Ele não aumentou tarifas de fato, mas criou um fator de correção de balança comercial. O que ele propôs é uma forma de que todos os saldos comerciais dos EUA sejam zero, só que aumentando o preço dos produtos. O desenrolar disso ainda é muito incerto”, conclui. Principalmente para ele, Trump e os EUA (adendo meu).