
Os carabineiros e as polícias militares dos sonhos de Bolsonaro
Os carabineiros chilenos têm generais. Eram 40 no ano passado. Muitos se aposentaram, mas o presidente Sebastián Piñera promoveu 13 coronéis a generais, mesmo depois dos confrontos de rua com os estudantes.
O sonho de Bolsonaro é ter generais nas polícias militares dos Estados, como há na polícia chilena que sempre prestou serviços ao fascismo.
Com generais, as PMs teriam menos controle dos governadores e mais de altos oficiais identificados com as ideias do bolsonarismo.
Mas qualquer oficial das polícias estaduais sabe que o sonho de Bolsonaro é mais amplo. É misturar interesses, projetos e demandas das Forças Armadas e das polícias com fardas.
Bolsonaro quer conectar almas e sentimentos dos fardados. Mas como fazer isso, mesmo que informalmente, sem mexer com atritos de hierarquias e comandos? Generais e coronéis das forças policiais civis e militares sabem que é quase impossível.
O bolsonarismo da bancada da bala mexe num vespeiro com os projetos que tramitam no Congresso para fortalecer e conquistar as polícias fardadas e civis.
Polícias militares que em algum momento pretendem ter poder político já incomodaram bolivianos (no golpe contra Evo Morales), argentinos (que tentam gerir atribuições das Forças Armadas e da Gendarmaria, revisadas no governo de Fernández) e chilenos (que devem reduzir o poder dos carabineiros pinochetistas e pensam até em extingui-los na nova Constituinte, que se forma em abril).
A tentação de Bolsonaro, que nunca conseguiu ser um oficial de fato, é ser o comandante supremo de PMs com poder político, porque das forças armadas ele nunca será.
Ele quer ser o verdadeiro comandante de polícias que a Constituição define como “forças auxiliares” do Exército.
Quem conhece o meio sabe que há em setores fardados, de todas as áreas, o sentimento de que forças armadas e forças policiais militares têm mais convergências do que discordâncias.
São dois os projetos que estão no Congresso e testarão essas conexões. Não são pouca coisa. No essencial, as polícias teriam mais autonomia em relação à voz de comando dos governadores.
E as polícias militares poderiam ter até os generais sonhados por Bolsonaro. É quase uma petulância, mas as propostas ainda não chegaram ao extremo de sugerir a criação da patente de marechal.
No Chile, é certo que os constituintes vão tirar poder dos carabineiros. Os mesmos que operacionalizaram o golpe contra Allende e cegaram pelo menos um olho de mais de quase 500 jovens com tiros de balas de borracha nas manifestações iniciadas em outubro de 2019.
Na Bolívia, o golpe não teria existido sem os motins e as afrontas dos policiais militares, que empurraram generais covardes para a ilegalidade e provocaram a queda de Evo Morales em novembro de 2019.
Na Argentina, polícias de Buenos Aires tentaram encurralar Alberto Fernández, em setembro, logo no início do governo, com ameaça de motim e até gritos de que poderiam aplicar um golpe.
No Equador, em 2010 e em 2016 o presidente Rafael Correa quase foi derrubado por tentativas de golpe sustentadas por policiais militares.
Bolsonaro talvez tenha intuído que, na hora de um aperto que o obrigue a tentar um golpe, pode contar mais com polícias militares do que com Forças Armadas.
Caminha na direção contrária à dos vizinhos que tentam moderar suas polícias. Vai dar certo? Generais do Exército talvez tenham mais respostas do que seus futuros colegas generais das polícias militares.
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