Foto: REUTERS/Adriano Machado

Bolsonaro pode ter o que explicar sobre Arapongagem do Paraguai

2 de abril de 2025, 15:30

A crise envolvendo o Brasil e o Paraguai, que tem abalado a relação entre os dois países e vem demandando esforços do Itamaraty para aplainar a situação pode ter origem numa trapalhada tão grande do governo Bolsonaro, que em agosto de 2019 quase derrubou o governo do presidente Mario Abdo, daquele país.

Na época o Paraguai mergulhou numa forte crise política, depois que veio à tona que seu governo havia assinado com o Brasil um documento, no qual se comprometia a comprar energia mais cara do que o habitual, da Usina de Itaipu, pertencente aos dois países. Altos funcionários do governo paraguaio caíram, e o presidente Abdo ficou sob ameaça de um processo de impeachment.

O acordo havia sido firmado em maio daquele ano, o de 2019, sem nenhuma divulgação. Assim que houve o vazamento da informação, foi cancelado oficialmente e a tensão diminuiu. Àquela altura, um grupo governista já havia aderido à proposta de impeachment da oposição, mas acabou desistindo, porque o acordo entre os dois países, nos termos propostos, foi logo desfeito. (Alguém deve ter dito: vai dar ruim).

Acordo desfeito
No Brasil, onde a mídia sempre passou a mão pela cabeça de Paulo Guedes, Bolsonaro e sua equipe, não indo fundo nas investigações sobre os desmandos daquele governo, a questão ficou por isso mesmo. A iniciativa de depor Abdo morreu no Congresso paraguaio e, por aqui, nunca se soube plenamente o caráter daquela negociação.

Certo é que, tal como agora, havia chegado o momento de se renegociar o acordo que trata das cotas de energia divididas entre os dois países e o preço a ser cobrado pelo Paraguai, sobre a energia excedente, vendida preferencialmente para o Brasil.

A proposta do governo de Bolsonaro gerou grande rejeição entre os paraguaios. Segundo dados de Itaipu Binacional, em 2018, o país vizinho, que é sócio do Brasil na usina, consumiu 1.717 MWmed (megawatts médios) da energia produzida em Itaipu.

Para 898 MWmed deste total, o Paraguai pagou US$ 43,80 por megawatt-hora. Para os demais 819 MWmed (47,7% do total), o valor pago por MWh foi de US$ 6. Isso ocorreu porque, pelo acordo firmado entre os dois países, o Paraguai define anualmente quanta energia quer da usina ao longo do ano. Se precisar, o país pode solicitar uma cota maior.

Fato é que agora, em 2025, o assunto das negociações com o Paraguai estava em novo momento de acertos e, junto com as conversas, surgiu essa “arapongagem”, que meteu o governo do presidente Lula numa suspeita, sem que ele nem sequer saiba explicar a origem do problema.

Na ocasião do “auê” paraguaio – agosto de 2019 -, ao conceder uma entrevista coletiva no Palácio do Planalto sobre dados de desmatamento no Brasil, Bolsonaro também foi questionado sobre os motivos que levaram os dois países (Brasil e Paraguai) a anular o acordo.

“Está em negociação, é reservada a conversa. Nós queremos um bom contrato com o Paraguai e estamos trabalhando neste sentido”, disfarçou o então presidente, e ficou por isso mesmo.

A ata do acordo havia sido assinada em maio daquele ano (2019), mas só se tornou pública em agosto, quando os paraguaios botaram a boca no mundo, ante a “volta” que levariam. A crise política se instalou no Paraguai, levando a oposição a tentar o impeachment do presidente Mario Abdo Benítez.

O que constataram, com muita surpresa, foi que o acordo elevaria em mais de US$ 200 milhões os custos para o Paraguai, segundo o ex-diretor da entidade. Quais eram os termos? Para onde iriam esses US$ 200 milhões negociados na surdina? A providência – muito estranha, aliás, pois o normal seria dirimir as dúvidas e, se fosse justa, fazê-lo vigorar -, foi a anulação rápida da ata, o que afastou o risco de impeachment do presidente paraguaio.

O embaixador do Brasil, na época, no Paraguai, Carlos Alberto Simas Magalhães, acabou assinando um documento reconhecendo a decisão do Paraguai de anular a negociação.

Quem sabe agora, seis anos depois, não seria a hora entender que tipo de vantagens Bolsonaro viu ali, e o que o levou a fazer tudo de modo sorrateiro, dando explicações evasivas?

Ao fim do imbróglio, Bolsonaro se apressou em afirmar que buscaria “um bom contrato com o Paraguai sobre compra de energia da usina de Itaipu”. Isso, logo depois de representantes dos dois países decidirem anular um acordo que, na prática, faria o Paraguai pagar mais caro pela energia produzida pela usina.

Sobrou para o Governo atual
Hoje (02/04), o Ministério das Relações Exteriores negou qualquer envolvimento do atual governo em ações de espionagem contra autoridades paraguaias. O comunicado oficial afirma que a operação começou em junho de 2022, quando a Abin era comandada por Alexandre Ramagem e estava subordinada ao então ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. (Olhem ele aí de novo!).

Vamos supor que Bolsonaro e sua equipe tenham ficado paranoicos sobre possíveis desdobramentos da situação criada pelo ex-presidente durante o desastrado (?) acordo, e tenham criado o monitoramento para se antecipar a uma nova eventual crise que surgisse no horizonte… Seria essa a situação? A investigar…

Tão logo tomou conhecimento da “arapongagem”, o atual governo, o do presidente Lula, tratou de agir: “A operação (estamos falando da arapongagem), foi anulada pela atual gestão em março de 2023, logo após a revelação de sua existência”, destacou documento emitido pelo Ministério das Relações Exteriores. Segundo o governo, a decisão de suspensão partiu do então diretor interino da Abin, em 27 de março de 2023, dois dias antes da posse de Luiz Fernando Corrêa como novo diretor-geral da agência.

O caso emerge em momento delicado para as relações bilaterais pois, como mencionado acima, está em curso uma nova rodada de negociações sobre o valor da energia excedente produzida pela usina binacional de Itaipu. O acordo anterior vigorou até dezembro de 2024, mas o Paraguai solicitou prorrogação até maio deste ano.

Conforme noticiou anteriormente o site do 247, “as autoridades paraguaias demonstraram preocupação sobre possível uso indevido de informações nas tratativas que, de novo, resultaram em preço mais baixo para a energia adquirida pelo Brasil.

A divulgação do caso teria irritado a equipe do presidente Lula, levando a Polícia Federal a abrir investigação sobre o vazamento dessas informações, que constam no depoimento de um agente no inquérito sobre a chamada “Abin paralela” que funcionou durante o governo Bolsonaro”. Aguardem porque, com certeza, haverá desdobramentos.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia