Bolsonaro ameaça aparelhar o Supremo

25 de dezembro de 2020, 12:44

Bolsonaro falou de tanta coisa, na live natalina da noite de ontem, que não prestaram muita atenção nas declarações sobre os seus indicados para o Supremo:

Mas não subestimem o que Bolsonaro anunciou como ameaça, depois das pescarias em Santa Catarina:

“Alguns dizem que eu devo disputar a reeleição. Se for reeleito, mais dois (irá indicar mais dois ministros). São quatro. Você passa a ter gente que pensa como você, porque dentro do Supremo também tem gente que atira para tudo o que é lado, mais à esquerda, mais à direita, mais para o centro, mas mais alinhado com o meu perfil”.

E continuou:

“Se você quer que o Supremo, em pouco tempo, esteja em grande parte alinhado no perfil parecido com o meu, tudo bem. Agora, se você quer para a esquerda, continue dando pancada em mim”.

Aí está Bolsonaro dizendo, sem rodeios, que vai indicar gente dele, que pensa como ele, para o Supremo. Bolsonaro quer aparelhar o STF, como se fosse uma extensão do aparelhamento do governo. Não vai escolher os melhores, mas os que se submeterem às suas posições.

Será que ele está errado, ou os certos foram os governos que, em nome de uma grandeza republicana, indicaram ministros considerados ‘progressistas’ que há muito tempo trabalham para a direita?

Os ministros mais valentes hoje no Supremo, no enfrentamento de Bolsonaro, foram indicados pela própria direita pré-Lula.

Este ano, o mais bravo dos 11 ministros do STF foi Alexandre de Moraes, indicado por Temer e recebido com deboche pelas esquerdas.

Moraes é o relator de dois inquéritos instaurados pelo Supremo, o das fake news e o dos atos fascistas contra o próprio STF e o Congresso.

É o ministro que mais recebe ameaças de morte. Esta semana um ameaçador, do Mato Grosso, foi preso.

Moraes foi cercado pelos ministros militares e vai resistindo como pode. Há ministros do STF que saíram em seu socorro, mas só para cumprir protocolo.

Alguns colegas não se manifestam há muito tempo em defesa do seu trabalho e da própria Corte.

Moraes é a grande surpresa do Supremo em tempos bolsonaristas. Os dois inquéritos, que devem ficar prontos no início do ano, envolvem a extrema direita ligada a Bolsonaro, os filhos, amigos dos filhos, deputados e uma turma da pesada a serviço deles.

Sem suporte da sociedade, que não reage a mais nada, Moraes vai levando adiante as duas investigações contra as quadrilhas. Até onde? É o que saberemos mais adiante.

A população resignada não tem o direito de cobrar nada dos ministros do Supremo que ainda enfrentam o fascismo. Nada.

Os dois inquéritos são conduzidos por Moraes no peito e na raça, sem o apoio de ninguém. Como Bolsonaro ameaçou se reeleger e indicar quatro ministros, Moraes pode ser daqui a pouco o último moicano.

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/colunistas/2020/12/o-mundo-de-pepe-nao-existe-mais/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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