A democracia assombra os que pretendiam enterrá-la viva

9 de novembro de 2020, 11:15

Livros com profecias sobre o fim da democracia enriqueceram muita gente e deprimiram os pensadores e os militantes mais sensíveis da esquerda mundial. Foi um grande estrago.

Há boas reflexões sobre a ameaça e há pensamentos genéricos rasos, que germinaram na estufa do pessimismo criado pela esquerda depressiva.

Repetiu-se nos últimos anos o que aconteceu quando Francis Fukuyama anunciou o fim da História, há três décadas, pelo ponto de vista dos liberais.

Os nobres valores ocidentais iriam se impor diante de todas as outras ideias e referências milenares, inclusive as absolutistas, e o mundo não teria mais com o que se incomodar.

O otimismo exagerado de Fukuyama teve agora, pelo inverso, a versão destrutiva dos que se empenharam em sepultar a democracia.

Mas o cenário geral não favorece videntes. Valores ditos liberais ainda são ignorados e pisoteados, porque estranhos, em vastas porções do mundo. Mas a democracia, onde resiste, ainda não morreu.

A democracia prova que está viva com a exibição do mais relevante de todos os seus sinais vitais. Pelo voto, a democracia formal, de escolhas e de representação, está dizendo que vive.

A democracia decidiu calar a boca dos que estavam cavando sua cova enquanto ainda respirava.

Em apenas um ano, pelo voto, aqui ao nosso lado a democracia derrubou os golpistas da Bolívia, que haviam chegado ao poder com o apoio de organismos ‘liberais’ internacionais, como a OEA.

A democracia impediu que a direita continuasse no poder na Argentina e derrotou, já no primeiro mandato, a estrutura que Mauricio Macri montou como uma máfia na Casa Rosada e em parte do Judiciário.

A democracia impediu que a extrema direita tivesse alguma expressão na eleição no Uruguai, que optou por um conservador moderado ao eleger o blanco Luis Alberto Lacalle Pou.

A democracia foi às ruas e, também pelo voto, num plebiscito histórico, enterrou a Constituição de Pinochet no Chile ao decidir que é preciso convocar logo uma Assembleia Nacional Constituinte.

A democracia esperneia e mostra sua força não só na vizinhança, mas em reações progressistas que acontecem em toda parte, impondo derrotas políticas – até bem pouco tempo consideradas improváveis – a figuras similares a Bolsonaro.

Pelo voto, a democracia derrotou Donald Trump, já no fim do primeiro mandato, e pode interromper a propagação do fascismo a partir do que era o seu centro propulsor.

A esquerda depressiva pode dizer que a democracia não é apenas o voto. Mas é o voto que a mobiliza para a defesa das liberdades, dos direitos de escolha, das instituições, dos esforços humanitários, dos programas sociais, das minorias e das conquistas ameaçadas.

Os depressivos também dirão que a direita e a extrema direita apossaram-se da Justiça, aparelharam o Estado, degradaram Congressos, potencializaram ignorâncias e ressuscitaram a ideia de que o poder pode ser compartilhado com os militares, como acontece no Brasil.

É a realidade. A direita mundial aprimorou o controle de todos os mecanismos da democracia e obteve a supremacia da comunicação em rede. Mas disso tudo só a democracia poderá dar conta.

Os depressivos têm dito até que a vitória de Joe Biden é uma miragem e que talvez fosse melhor continuar enfrentando Trump. A democracia que não só sobrevive, mas parece querer anunciar que se revitaliza, é um incômodo para o masoquismo de boa parte das esquerdas.

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/a-ressaca-de-glenn-greenwald/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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