Um ano. Exatamente um ano

17 de março de 2021, 18:42

No ano passado o 17 de março caiu numa terça-feira. E lá pelo meio-dia, minha companheira e eu viemos do Rio para Petrópolis. Dois dias depois, chegou Felipe, nosso filho.Eu achava que íamos ficar aqui, meio isolados, durante um mês, talvez mês e meio. A tal “quarentena”.

Felipe me criticou duramente: disse que íamos ficar pelo menos até o meu aniversário (junho), muito provavelmente até o dele (setembro) e que era alto o risco de virarmos o ano na serra.Atribuí sua tensão, evidente e palpável, à precipitação dos mais jovens. Só que ele acertou em cheio.No fim daquele março, um amigo alugou uma casa num distrito de Petrópolis a uma meia hora daqui de casa. Contou que havia alugado a casa até maio. Ou seja, também achava que era uma questão de dois meses.

Bem: neste dia 17 de março de 2021 completamos um ano, Felipe devolveu o apartamento do Rio e se instalou na casinha dele, no alto do terreno, e daqui a onze dias será a vez do meu amigo cumprir seu primeiro ano aqui na serra.Só voltei ao Rio no finalzinho de agosto. Tenho ido a cada duas, três semanas, mas sempre por um período de no máximo quatro dias.É evidente que a quebra de rotina e a perda de pontos de referência causam um certo dano. Eu, que vivo da memória, volta e meia sinto lacunas. Não ver amigos, não ver minha família, tudo isso é inédito e tremendo. Por exemplo: há mais de década e meia, uma vez por mês um grupo de cinco amigos, que batizei de “Quinteto fora de si”, se reunia para jantar. A última vez foi em fevereiro do ano passado. E dos outros quatro, só vi um, o que alugou a casa aqui na serra.

Claro que sou, somos, privilegiados. Aliás, muito privilegiados. Só o fato de nós três podermos ficar cercados de verde e ar puro mostra isso.Mas, e a dor da perda de pessoas amigas, algumas amigas há décadas? Melhor nem mencionar o tema. O risco de mais tristeza é altíssimo.E há ainda uma outra dor, tremenda: o que o Genocida e sua cambada fizeram e continuam fazendo com o país. Nunca, nem por um segundo, imaginei que iria viver o que estamos vivendo desde o primeiro dia do ano de 2019. E que só fez piorar. E que irá piorar ainda mais.Tudo, tudo vem sendo destroçado meticulosamente. E agora, vidas. Milhares de vidas. Dia desses foram quase duas mortes por minuto, diante da inépcia de um general da ativa que não fez mais que lamber as solas do sapato do Genocida.Essa dor vai continuar por muito, muito tempo, mesmo depois de que ele tenha sido extirpado da presidência e mandado para a cadeia.Leio, por alto, a declaração de um funcionário da revista “Isto É” pedindo perdão por ter votado no Genocida. O texto termina assim: “E ainda que eu considere meu erro imperdoável, apelo à boa vontade daqueles que também erraram como eu errei. Perdão”.Confesso que não entendi o apelo: quer ser perdoado pelos que também votaram no Genocida?Porque da minha parte, nem pensar. Não só quem votou no Genocida é imperdoável: também os que votaram em branco, anularam o voto ou se abstiveram. Também eles.Este é o pior governo da história da República. Pior até mesmo que a abjeta ditadura elogiada não só pelo Genocida, mas pela milicaiada espalhada ao seu redor. O general da ativa que sepultou o ministério da Saúde aboletando fardados por tudo que é canto é o melhor exemplo disso. E, coisa inacreditável, temos ainda o pior Congresso de décadas. Não vejo horizonte pela frente. O médico que vai substituir o general fala em “continuidade”. Ele deveria, isso sim, dar combate a um vírus mais tremendo que o corona: o Bolsonavírus. Mas se aceitou o cargo, é só mais um a se juntar ao Genocida e seu governo de assassinos. Espero estar errado, mas é muito difícil esse erro. Tremendo cenário. Tremendo e trágico.

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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