A valentia de um brasileirinho

6 de novembro de 2021, 20:03

Vamos parar de frescura sobre gestos de bravura na internet (e mesmo fora daqui) e prestar atenção na maior lição de valentia que o Brasil viu este ano.

É a cena desta foto, do menino enfrentando os policiais militares que imobilizam sua mãe com brutalidade. A mulher está com um bebê no colo.

Para exercer plenamente seu poder arbitrário, um deles se ajoelha no pescoço da jovem. Aconteceu em Itabira, Minas, na sexta-feira.

Um menino de 10 anos faz o que um monte de barbado se recusa a fazer. Ele reage e enfrenta os policiais durante 14 segundos, até ser contido por uma mulher.

Não, ninguém imagina que alguém pudesse chutar os policiais, como o guri fez. Mas que pelo menos reagissem de forma assertiva e criassem constrangimentos.

Ninguém fez nada de mais efetivo. Dá para notar, mais uma vez, que as reações mais valentes são das mulheres. São elas que gritam.

O argumento é sempre o mesmo: homens que tentarem enfrentar PMs serão espancados juntos com a vítima. Diziam isso na ditadura.

Geralmente, os homens fazem o que se vê na imagem desse caso. Ficam olhando, como todos nós olhamos depois pela internet.

Também não fizeram nada nos Estados Unidos, quando um policial matou George Floyd asfixiado, usando a mesma ‘técnica’ covarde do joelho no pescoço.

Não fizeram nada quando seguranças assassinaram a socos o trabalhador João Alberto Silveira Freitas, no Carrefour de Porto Alegre.

O guri foi à luta. O Brasil contemplativo, que assiste ao avanço do fascismo sem reagir, levou um soco na cara com essa imagem.

Durante 14 segundos, o menino enfrentou os policiais e continuou disposto a defender a mãe, mesmo quando alguém o retirou da cena.

Os PMs disseram que a mulher estava armada. Mas não é o que Bolsonaro recomenda? Que comprem armas, e não feijão, para enfrentar os bandidos?

Já ouvi de um amigo que o brasileiro não se solidariza como deveria com os agredidos pela violência bolsonarista porque as pessoas estão com medo.

A maioria se sente imobilizada, não por falta de consciência política, nem por desinformação e muito menos por alienação.

O brasileiro foi contido pelo medo. A extrema direita agora no poder descobriu que aqui, ao contrário do que acontece na vizinhança, o medo prevalece.

O Brasil é um país com medo de Bolsonaro, dos filhos de Bolsonaro, dos milicianos, dos policiais, do gabinete do ódio e dos militares do entorno de Bolsonaro.

Esse menino deveria ser acolhido e protegido pelas instituições que deveriam ter a sua coragem, por prerrogativa e por obrigação.

A mãe dele é negra. George Floyd e João Alberto Silveira Freitas também eram negros. E os policiais e seguranças violentos muitas vezes são negros.

Abaixo, o vídeo:

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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