
O caso do batom e as emoções violentas que afugentaram Fux da Serra gaúcha
Em maio de 2022, uma revolta virtual articulada por grandes empresários impediu que Luiz Fux fosse a Bento Gonçalves, na Serra gaúcha, para uma palestra no CIC (Centro da Indústria, Comércio e Serviços). Parte da elite da região de colonização italiana não queria ouvir o ministro nem saber que ele estava por perto.
A sequência do que aconteceu em Bento pode ajudar a entender o contexto do famoso caso da Débora do batom e suas controvérsias sobre o 8 de janeiro. Pode contribuir para que se entenda que afrontas a instituições e autoridades não são o que parecem ser como manifestações de liberdade de pessoas apenas tensionadas.
Fux deveria falar, em junho daquele ano, sobre ‘Risco Brasil e segurança jurídica’. Empresários e executivos de empresas de porte, organizados em grupos de zap, começaram a pressionar patrocinadores e a própria CIC para que Fux fosse desconvidado. O banco Sicredi, que patrocina o futebol, foi um dos primeiros realizadores a avisar que estavam saltando fora.
O movimento cresceu e a CIC informou que, depois das reações, não teria como acolher o ministro em sua sede. A OAB local assumiu a tarefa, mas logo recuou. Ninguém garantia a segurança do convidado. Fux era o presidente do Supremo.
O STF anunciou a decisão de cancelar a ida a Bento Gonçalves, por falta de segurança. Não porque Fux estava constrangido pelo boicote, nem pelos excessos dos que alertavam de que ali ele não entrava e, se entrasse, dali não saía. Fux não foi por precaução, por medo mesmo.
É provável que, entre uma maioria de machos da velha direita agora aliados da nova extrema direita, que viam Fux como um juiz de esquerda, existissem mulheres com batom. Que, se olhadas de longe, seriam apenas mulheres com batom. E se, olhadas de perto, seriam mães de dois ou mais filhos que haviam, num momento ruim, atacado não só o ministro, mas todo o STF.
Fux era conhecido como apoiador da Lava-Jato e linha-dura na imposição das suas ideias e seus votos sobre corruptos, que eram, claro, identificados na época como ligados ao PT, a Lula, ao comunismo e a tudo que estava ali. Pois os reaças de Bento não queriam Fux.
Mesmo que Fux, como a Folha revelou agora na edição dessa quarta-feira, tivesse se reunido a sós com Bolsonaro quando assumiu a presidência do STF. Mesmo que, para as esquerdas, fosse muito mais engajado às causas e discursos da direita. Mesmo que a própria CIC tivesse convidado o ministro.
Fux pensou e não foi. Pode-se perguntar hoje, para fazer conexão com uma declaração da semana passada do próprio ministro, se aqueles ataques não aconteceram sob violenta emoção e se isso não atenua possíveis delitos. Os tios empresários de Bento estavam emocionados demais, e uma autoridade não poderia responder com o mesmo grau de emoção. Como Fux propôs no caso da Débora do batom.
Também foi sob violenta emoção que logo depois, em novembro de 2022, uma turba expulsou o ministro Luis Roberto Barroso e sua família da praia de Porto Belo, em Santa Catarina. Se havia dado certo em Bento, daria em Porto Belo. E foi o que aconteceu.
Qualquer outro ministro do STF que se aventurassem a andar pelo interior, desafiando o fascismo, correria o mesmo risco. Mas, para muitos, o que aconteceu em Bento e o que se repetiu em Porto Belo foram apenas escaramuças. Não se tem notícia de ninguém alcançado pelo Ministério Público por causa daquelas ameaças.
Tudo normal, dentro do que pode ser considerado liberdade de expressão, risco Brasil e segurança jurídica precária. Por insegurança, Fux não foi a Bento e Barroso fugiu da praia catarinense como quem escapa no meio da madrugada de uma cidade do faroeste sitiada pelos bandidos. Não havia o que fazer.
Os derrotados eram ministros do Supremo, dois dos que, pelo ponto de vista de direita e esquerda, chegaram no auge do lavajatismo a ficar mais próximos dos justiceiros que diziam lavar do que dos que estavam sendo lavados. E mesmo assim foram perseguidos pela direita.
E chegamos então, depois de toda a articulação do golpe, ao 8 de janeiro e ao momento em que Débora do batom picha a estátua da Justiça diante do STF. De todos os personagens, só ela ficou famosa, por causa do batom. Os homens de Bento e de Porto Belo não se tornaram celebridades.
E assim estamos hoje tentando saber se é possível calibrar as emoções, inclusive as dos ministros da mais alta Corte, por recomendação de Luiz Fux, o ministro que perdeu para os tios de Bento e teve de recuar. Porque tudo, incluindo outros episódios semelhantes, parecia normal e apenas exagerado num ambiente reconhecidamente anormal.
Gente de Bento e de Porto Belo deve saber quantas mulheres com e sem batom fizeram parte dos grupos que acossaram e venceram Fux e Barroso. E não só por causa de emoções violentas.